Quanto sobra depois de pagar supermercado, energia, combustível, prestações e cartão? Para as famílias da Serra Catarinense, essa conta ganha importância no segundo semestre de 2026 diante de um cenário estadual marcado pelo elevado endividamento e pelo custo do crédito.
Em Santa Catarina, 76,9% das famílias estavam endividadas em julho. A inadimplência atingia 23,6%, enquanto 9,5% declaravam não ter condições de pagar as contas atrasadas.
Os indicadores são estaduais e não representam especificamente Lages ou os demais municípios da Associação dos Municípios da Região Serrana (Amures). Eles ajudam, porém, a dimensionar o ambiente econômico no qual as famílias serranas chegam à segunda metade do ano.
O cenário combina dois movimentos: Santa Catarina mantém indicadores positivos no mercado de trabalho, mas uma parcela significativa da renda das famílias já está comprometida com obrigações financeiras.
Quase 30% da renda está comprometida com dívidas
Um número ajuda a explicar por que ter emprego ou renda não significa necessariamente ter dinheiro disponível para consumir. Em média, 29,9% da renda das famílias catarinenses estava comprometida com dívidas.
Na prática, uma parte do orçamento mensal já tem destino antes mesmo das novas despesas do mês. Entram nessa conta parcelas do cartão, financiamentos, empréstimos e outros compromissos assumidos anteriormente.
Para o consumidor da Serra, o efeito pode ser percebido nas decisões cotidianas: adiar uma compra, pesquisar mais antes de fechar negócio, reduzir gastos não essenciais ou evitar novas prestações. Isso também importa para a economia regional.
Lages funciona como principal centro comercial e de serviços da Serra Catarinense e concentra parte significativa do consumo de moradores de municípios vizinhos. Quando as famílias diminuem a margem disponível para compras, o comportamento pode chegar ao comércio e aos prestadores de serviços.
Cartão ajuda no mês, mas compromete renda futura
O cartão de crédito permanece entre as principais formas de endividamento das famílias. Em Santa Catarina, 69,6% das famílias endividadas utilizavam essa modalidade em julho.
O cartão não representa necessariamente um problema. Compras parceladas que cabem no orçamento são consideradas dívidas mesmo quando estão rigorosamente em dia. A dificuldade aparece quando o cartão passa a funcionar como extensão permanente da renda.
Uma compra de supermercado parcelada ou uma despesa inesperada colocada na fatura resolve uma necessidade imediata, mas transfere parte da conta para os meses seguintes. Se não houver pagamento integral da fatura, os juros tornam a reorganização financeira mais difícil.
Esse efeito ganha importância para famílias que já utilizam grande parte da renda para despesas essenciais.
Realidade envolve Lages e municípios da Amures
O debate sobre o orçamento familiar não se restringe a Lages.
A região da Amures reúne municípios com diferentes tamanhos populacionais e estruturas econômicas. Além do polo regional, existem cidades nas quais agricultura, pecuária, setor florestal, indústria, turismo, comércio e serviços participam da geração de emprego e renda.
As diferenças entre esses municípios também significam que os efeitos do cenário econômico não são necessariamente iguais para todas as famílias. Quem precisa se deslocar entre cidades para trabalhar, estudar, buscar atendimento ou consumir serviços, por exemplo, incorpora transporte e combustível ao orçamento.
Famílias que concentram uma parcela maior da renda em alimentação, energia e outras necessidades básicas também possuem menor espaço para absorver aumentos de preços. Por isso, um indicador estadual de inflação ou renda não é sentido da mesma maneira em todas as casas.
Emprego em SC convive com dinheiro comprometido
Santa Catarina mantém um dos mercados de trabalho mais aquecidos do país. No primeiro trimestre de 2026, o Estado tinha aproximadamente 4,5 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 126 mil desocupadas.
O bom desempenho do emprego é importante porque sustenta a renda das famílias e o consumo. Mas ele não elimina automaticamente dívidas acumuladas.
Uma pessoa pode estar empregada e, ainda assim, começar o mês com uma parcela importante do salário comprometida com prestações, empréstimos e cartão. Essa diferença ajuda a explicar por que indicadores positivos de emprego podem conviver com uma percepção de aperto financeiro.
No caso catarinense, enquanto 76,9% das famílias possuíam dívidas, quase uma em cada quatro estava com alguma conta atrasada.
Inflação pesa de maneira diferente no orçamento serrano
A inflação também não chega igualmente a todas as famílias. O IPCA mede a variação média de uma cesta ampla de produtos e serviços. Na prática, porém, cada residência possui uma composição própria de despesas.
Uma família que destina a maior parte da renda para supermercado, energia, gás, combustível e moradia percebe principalmente a variação desses itens.
Já reduções de preços em produtos comprados esporadicamente podem ajudar a conter o índice oficial sem produzir alívio imediato naquele orçamento. É daí que surge a chamada “inflação sentida”.
Ela não é um indicador oficial diferente do IPCA. É a percepção formada pela combinação dos produtos e serviços que cada família efetivamente consome.
Na Serra Catarinense, essa análise ganha ainda características locais. Deslocamentos rodoviários, condições climáticas e características econômicas dos municípios podem alterar a composição das despesas de cada residência, embora sejam necessários dados específicos para medir esses efeitos.
Menos dinheiro disponível afeta o comércio regional
O comprometimento da renda também merece atenção por seu possível reflexo na atividade econômica. Quando uma família precisa destinar mais recursos ao pagamento de compromissos anteriores, sobra menos para novas compras.
Primeiro aparecem os gastos considerados indispensáveis. Depois vêm roupas, móveis, eletrodomésticos, lazer e outros produtos e serviços que podem ser adiados.
Para Lages, que exerce papel de polo regional de comércio e serviços, acompanhar o comportamento do consumidor é especialmente relevante. Moradores de diferentes municípios da Serra utilizam a cidade para compras e serviços, fazendo com que alterações no consumo familiar possam ter alcance além das fronteiras municipais.
Isso não significa, por si só, retração do comércio serrano. Os indicadores apresentados não permitem fazer essa afirmação. Eles mostram, entretanto, que o orçamento das famílias chega ao segundo semestre com menos espaço para novos compromissos.
Segundo semestre exige cautela no orçamento
Os números estaduais apresentam uma situação melhor que a média brasileira em diferentes aspectos. A inadimplência em Santa Catarina é inferior à registrada nacionalmente e o mercado de trabalho permanece forte.
Mesmo assim, o endividamento de 76,9% mostra que a maior parte das famílias catarinenses possui compromissos financeiros em andamento. Para a Serra, o cenário reforça a importância de observar não apenas quanto as famílias ganham, mas quanto permanece disponível depois das despesas e parcelas.
Essa diferença entre renda e renda disponível pode ajudar a explicar as escolhas dos consumidores de Lages e dos demais municípios da Amures ao longo do segundo semestre. O desafio não é apenas colocar dinheiro no bolso.
É fazer com que, depois das contas, ainda sobre alguma coisa nele.


